Fala, pessoal! Na segunda entrevista da nova coluna do blog, conversamos com o jornalista Luiz Ademar, comentarista do SporTV/PFC. Luiz, que já trabalhou em grandes veículos como Lance!, Diário de São Paulo e GloboEsporte.com, diz ser apaixonado por futebol e pela leitura desde criança. Ele surpreende muitos quando revela ser um fã incondicional do futebol do interior, tanto que criou o "Blog Futebol Caipira", onde noticia as novidades dos clubes interioranos de todo o Brasil.
Com 23 anos de trajetória na profissão, Luiz também esclarece suas opiniões quanto a assuntos polêmicos abordados com frequência nos últimos tempos, como o "Bom Senso F.C.", o "medo" dos jornalistas de revelarem o time do coração, entre outros assuntos.
Confira a entrevista completa:
Digitando Futebol - Como veio à sua mente a ideia de virar jornalista esportivo?
Luiz Ademar - Sempre adorei futebol. Quando criança, lia diariamente "Popular da Tarde" e "A Gazeta Esportiva". E joguei futebol de salão (esse era o nome) e campo no São Paulo. Queria ser jogador. Mas na altura dos 17 anos, eu fui emprestado para o São Bento. Fui até Sorocaba e teria de morar em pensão e pagar os custos para seguir atuando por lá. Não tinha condições financeiras. Resolvi me federar no Nacional, da Capital, no futebol de salão e jogava campo em clubes da várzea ganhando um troco. Fui trabalhar e estudar pensando em me especializar na área que adorava, o esporte. Na faculdade, a paixão aumentou. E tenho 23 anos de profissão, aos 46 anos, e essa paixão não acaba.
O que você pensa sobre a cultura dos jornalistas esportivos, em boa parte no Brasil, não deixarem claro para qual time torcem?
Não é cultura. É medo! Medo de ser surpreendido por torcedores no seu trajeto aos estádios. Se você declara seu time, o torcedor fala que você exagera falando dele e detona os demais. Te rotulam de tendencioso, parcial, safado. E os profissionais acabam ocultando o time, ou até mesmo falando que torcem para outros, de preferência, pequenos, como Portuguesa e Juventus. Eu entendo porque, pelo SporTV, não faço nunca transmissão em tubo, ou seja, dentro do estúdio. Viajo pelo Brasil inteiro e sei muito bem disso. Em sua grande maioria, pode apostar, o medo impede de divulgar o time. Eu, particularmente, entendo que todos estamos no futebol porque amamos um clube e essa paixão nos tornou jornalistas. Todos podemos e temos o direito de torcedor. O que não podemos, e jamais faremos, é distorcer. Simples assim.
Como você administra as críticas dos torcedores que cogitam o seu time de coração e tentam ligar isso aos comentários que você faz?
Enfrento pouco esse problema. No Twitter, uma ou outra pessoa fala a respeito. E quando a troca de ideias é sem ofensas, eu discorro a respeito do tema. Se for ofensiva, eu excluo e fim de papo. Sou de família quase 100% são-paulina. Parentes de pai e mãe, de sogro e sogra. Sofro críticas, construtivas, dentro da família porque entendem que às vezes sou muito crítico em relação ao São Paulo. Já na torcida do Palmeiras, a maioria, acredita que sou palmeirense. Quando descobrem que não, me parabenizam pelo respeito que tenho ao clube. Na verdade, eu sempre respeitei todos. Amor de clube muitas vezes é fanatismo puro. O cara troca de mulher, de família e não de time. É preciso respeitar e compreender. E faço isso muito bem.
Após a Copa, muito se falou sobre renovação na Seleção Brasileira. Depois de quase um mês da derrota para a Alemanha, você acha que os dirigentes já conseguiram entender a essência dessa reformulação? Ou, se ainda não conseguiram, pensa que a situação ruma para a compreensão da renovação?
Não é possível entender ou reformular com dirigentes amadores, que nunca jogaram bola ou jamais organizaram algo que preste. Os dirigentes acabaram com as categorias de base, destruíram os clubes pelo Interior e acabaram com o celeiro de craques, que sempre foi a essência da Seleção Brasileira. Na década de 80, por exemplo, você formaria uma Seleção Brasileira de respeito só com jogadores da Ponte Preta e Guarani. Hoje esses dois clubes, como tantos outros, estão quase falidos financeiramente. Primeiro é preciso mudar a estrutura da CBF. Ter dirigentes profissionais trabalhando ao lado de ex-atletas consagrados, como Zico e Falcão, por exemplo. E depois partir para renovação. Gosto do trabalho do Gallo, que vem mostrando competência nas categorias de base da Seleção. Mas reformulação com Gilmar Rinaldi, que do dia para noite deixou de virar empresário (????), e Dunga? Não acredito!
Acha que Mano Menezes foi injustiçado na Seleção Brasileira ou a saída do treinador evitou um vexame maior na Copa do Mundo?
Entendo que não era a hora do Mano Menezes. Com a recusa do Muricy, ou a CBF acertaria com Fluminense para conseguir sua liberação, ou partia para outra opção. Mano foi pela ligação com Corinthians e Andrés Sanchez, que era homem de confiança do Ricardo Teixeira, de triste lembrança. O seu trabalho foi muito ruim. E quando estava melhorando, caiu. Mas injustiçado na CBF foi Falcão, por exemplo. Não o Mano. Com o elenco atual da Seleção Brasileira, pode apostar, ele não faria muita coisa diferente do Felipão.
Você vê uma desvalorização do jornalista, por exemplo, com um profissional cada vez mais encarregado por várias funções e recebendo menos salário?
Na maioria das empresas, sim. Você acumula funções e o salário geralmente não é compatível. Mas trabalho em uma empresa (TV Globo) que valoriza seus profissionais, paga bons salários, paga hora extra e adicional noturno religiosamente, as viagens são sempre de ótima qualidade em relação aos hotéis e voos. E conheço outras tantas que seguem o mesmo padrão. Sinto que existe um problema maior na imprensa escrita e em algumas emissoras de rádio.
Você especializou-se em futebol do interior, com um blog apenas para isso. Conte-nos um pouco dessa paixão.
O blog caipira, dando ênfase ao Interior, é uma história longa. Mas tentarei resumir. Me formei em dezembro de 1990, e no início da 91 comecei a trabalhar na Folha Metropolitana de Guarulhos. Trabalhava na editoria de Polícia e ajudava no Esporte, geralmente escrevendo de futebol amador e de dois clubes da cidade, o Flamengo, de Guarulhos, e o antigo Vila das Palmeiras, atual Guarulhos. Fazendo matérias dos clubes pequenos, com personagens e belas história, chamei a atenção do Diário Popular. Em 92, eu fui convidado para fazer teste na editorias de esportes. Passei e me colocaram para cobrir todos os clubes pequenos do Paulistão. Viajava para as cidades para fazer matérias especiais. Quando fui promovido e passei a ser setorista do Corinthians, em 94, pedi para continuar cuidando da página do Interior. E não parei mais. Fiquei 10 anos no Diário. Saí em 2002 e me pediram para voltar em 2003 como colunista, na coluna Giro pelo Interior, noticiando os clubes pequenos. Comecei a acumular tanta notícia que precisei criar um blog, pois não conseguia mais colocar tudo no jornal. E de lá para cá tornou uma paixão. Não ganho nada por isso, apenas o prazer de divulgar, escrever e muitas vezes mostrar o serviço dos assessores de imprensa de clubes e jogadores.
O Flamengo é lanterna do Brasileirão. O Botafogo passa por uma enorme crise financeira. O Vasco não está tendo vida fácil na Série B. O Flu, que quase foi rebaixado ano passado, hoje, briga pelo título. Como você vê essa crise e oscilação no futebol carioca?
Essa crise existe no futebol paulista. É que aqui os clubes são administrados um pouco melhor. Veja. Só o Corinthians está no G-4. Na Série B, dos quatro clubes, apenas a Ponte está na parte intermediária da tabela. Bragantino, Oeste e Portuguesa lutam para não cair. Na Série C: Mogi Mirim está no G-4. Guaratinguetá e Guarani estão capengas e São Caetano muito perto de cair para Série D. Já na Série D, após três rodadas, nenhum paulista ainda venceu. Pior, Grêmio Barueri e Ituano, campeão paulista, só perderam. E o Penapolense acumula empates. Mas voltando ao futebol carioca, os problemas são as sucessivas más administrações. Treinadores e jogadores ganhando salários próximos de um milhão cada, dívidas acumuladas, processos correndo solto e elencos cada vez mais fracos. O Fluminense sobrevive a isso por causa da Unimed. Mesmo assim, ano passado foi rebaixado e escapou pelo erro da Portuguesa. Enquanto não profissionalizarem os clubes, pode apostar, será difícil mudar esse quadro.
O Cruzeiro ganhou o Brasileirão 2013 com enorme facilidade. Este ano, está liderando com certa folga. Qual é o segredo do clube mineiro?
O mesmo segredo do Muricy no tricampeonato do São Paulo. Montar elenco forte com o dinheiro da venda do Montillo. Só no ataque, por exemplo, existem Dagoberto, Borges, Marcelo Moreno, William, Marquinhos, Ricardo Goulart e Júlio Baptista, que também podem jogar no meio. Sem contar os garotos bons de bola da base. Quando os salários estão em dia, as contas todas pagas e a comissão técnica é competente, um grupo forte pode ter um tropeço ou outro, com alguns percalços, mas os títulos acontecem em série.
Ano passado, nenhuma equipe de São Paulo classificou-se para a Libertadores. Você acha que o futebol paulista está em crise ou é apenas um mau momento?
Como disse na pergunta relacionada ao futebol carioca, o futebol paulista também vive crise técnica e tática. Os treinadores precisam se aperfeiçoar e acreditarem mais em garotos da base. Os clubes estão apostam em jogadores baratos e sem bom nível técnico em detrimento a jovens valores. E o futebol está cada vez pior. É preciso ousadia no banco de reservas e material humano de qualidade. Hoje, só o Corinthians pode sonhar em correr atrás do Cruzeiro. São Paulo, Palmeiras e Santos terão dificuldades até para buscar vaga na Libertadores.
Recentemente, o presidente do Mogi Mirim (Rivaldo) afirmou que poderia fechar o clube caso não conseguisse um patrocínio. Como você vê esse descaso (por parte da CBF, FPF, patrocinadores, etc.) com os clubes menores? Acredita no "Bom Senso F.C."?
O descaso é culpa dos clubes. Quem vota nos presidentes de federação? Os clubes. Na época do Farah, com todos os seus erros, os clubes do Interior mandantes, além da renda, recebiam uma verba a cada jogo dentro de casa. Hoje recebem misérias e ainda precisam arcar com despesas altas, como é o caso da Polícia Militar, que vai cobrar caro para atuar dentro dos estádios. A FPF cada vez mais com os cofres cheios, com heliporto em sua sede, e os clubes falidos. Que aprendam a cobrar e votar ou não reclamem. E acredito no Bom Senso. Espero que continuem cobrando e agindo e não percam as esperanças. Que busque apoio político, com o presidente e deputados como Romário. É possível mudar o quadro atual.
Nessa janela de transferências, os clubes brasileiros foram atrás dos estrangeiros. O Palmeiras, por exemplo, já contratou quatro argentinos (incluindo Gareca). O que você acha da vinda dos estrangeiros para o Brasil? Em sua opinião, isso pode acabar com a essência do futebol brasileiro?
Sou a favor do intercâmbio. Gostei das contratações do Palmeiras. O importante é não trazer um jogador meia-boca, desvalorizando as suas categorias de base em detrimento a jogadores de pouco potencial. Somente com intercâmbio e com administrações profissionais o futebol brasileiro vai sair do buraco.
Confira a nossa entrevista anterior, com Edu, do Blog Futirinhas: Entrevista Futirinhas
